CARTAS DO MUGUELE
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CARTA AO MINISTRO DA CULTURA (20-05-2002)
Querido senhor Ministro
Como sei que estavas com saudades minhas, resolvi escrever esta carta para te
dizer uma coisa que acho que tu não sabes:
- A Cultura não se mede em toneladas de tomates. Essa é outra e chama-se
Agricultura.
Eu sei que as pessoas precisam de tomates mas, como tu não és o ministro dos
tomates, desculpa, da Agricultura, não tens que te preocupar com a falta de
tomates dos outros. E tu sabes muito bem que, se não tens tomates, vais ao
supermercado e compras.
A cultura também não se mede em quantidades de meninos de óculos grossos,
agarrados a livros e fechados em salas a dizer coisas muito difíceis para os
outros não perceberem.
A cultura é as pessoas saberem das coisas delas.
O meu pai diz que o meu avô era uma pessoa muito culta e não era por ter
tomates, que até tinha, lá na horta dele. Mesmo sem ter a 4ª classe, ele
sabia muitas histórias lá da terra dele que contava a todos, porque falava com
muita gente, via muitos sítios e estava sempre a querer aprender. Claro que ele
às vezes inventava um bocadinho mas sabes, a culpa era daquele senhor que caiu
da cadeira porque não o deixou ir à escola.
Com as pessoas da Arqueologia é a mesma coisa. Apesar de muitos não terem
tomates, todos querem saber muitas coisas, conhecer muitos sítios e estudar
muito para poderem contar a toda a gente. Além disso, acho mesmo que todos têm
mais do que a 4ª classe.
Agora que já sabes o que é a Cultura, tenho que te dizer que não podes fechar
a casa do meu amigo IPA porque os meninos que lá estão gostam muito de ajudar
as pessoas que estão a trabalhar e os meninos da escola quando eles querem
estudar.
Moral da história (a minha professora diz que se deve pôr sempre):
- É importante ter tomates mas, mais importante, é podermos aprender como é
que eles apareceram.
Até amanhã, senhor Ministro
Muguele
Diâr
miss-târ Béde Narique
Dice
iz mái fârse-te léter ine inglishe sou ai apóla-djáize fóre éni
miss-teique iú mêi fáind ine ite.
Uí
ar véri pór pipâl ande éz uí ar sune gôingue tu bi aut ove a djobe, uí
quénte afórde de amaunte ove mánei iú assequede sou déte iú cude putin a
gude uârd fór IPA. Bissáide-se, óle ove ásse ar duingui-te fóre fri.
Ai
quéne si déte de mini-stâr queime fóruârde uit a gude ófar.
Ai-ve
góte nóting mór tu sei tu iú rái-te nau éque-cépte
Fáquiú,
miss-târ Béde Narique
Muguele
CARTA AO MINISTRO DA CULTURA (14-05-2002)
Querido senhor ministro
Gostei muito de te ver na televisão. És muito mais giro do que os tele-tubbies.
Fazes bonecos e mexes os braços e abres muito a boca. Só não percebi muito
bem o que estavas a dizer, mas não faz mal porque tu também não.
O meu pai diz que tu disseste uma palavra com 22 letras. Não podes fazer isso
senão a Bruxa do Leite fica zangada por estares a gastar muito e fo..., fu...,
funde-te.
Também não percebi muito bem o teu boneco mas como tu és da cultura deve ser
arte e eu disso ainda não percebo nada. Mesmo assim vou dizer o que acho que
ele era. Tinha dois passarinhos, um chamado IPA e outro chamado IPPAR, que iam
pousar em cima dum senhor gordo que se chamava Autarquias Público. Que raio de
nome. É teu amigo?
E olha, os passarinhos na minha terra têm asas. Quando os meninos se esquecem
das asas dos passarinhos nos desenhos, a minha professora acha que eles são
atrasadinhos e por isso passa mais tempo a ensiná-los. A tua professora não
passou mais tempo a ensinar-te? Então não tens a culpa. És mais uma vítima
da reforma educativa.
Depois tinha um montinho com umas setas para cima e como eu sei que os montes
não voam, ou tu nunca foste ao campo ou aquilo era o porquinho dos Pink Floyd
antes de levantar voo. O porquinho chamava-se Património Arquitectónico e o
rabo dele chamava-se Arqueologia.
A minha mãe diz que é má educação não responder às perguntas que nos
fazem mas também diz para eu não falar a estranhos. Como tu não conheces de
lado nenhum aquele senhor da carequinha que te fez uma pergunta, não
respondeste.
Fizeste muito bem.
Estavas um bocadinho agitado. Devias dormir mais. Mas não consegues, não é,
senhor ministro?
Boa noite. Sonha com a bruxa
Muguele
CARTA AO MINISTRO DA CULTURA (10-05-2002)
Querido Senhor Ministro
Escrevo-te esta carta para te pedir que não faças mal ao meu amigo IPA.
Eu sei que ele não é teu filhinho e que tu não gostas lá muito do pai dele,
mas isso não é razão para o ires fechar num quarto escuro em casa do primo
dele, o IPPAR.
Não sei se tu sabes, mas a casa do IPPAR é escura, cheira a bafio, ninguém
sabe onde estão as coisas e as pessoas lá gostam mais de casas velhas (por
isso é que não as arranjam) do que de brincar na areia com baldes e pás para
descobrir coisas sobre as pessoas antigas.
Na casa do meu amigo IPA, há muitos meninos. Tá bem, há lá dois ou três que
fazem umas coisas mal feitas e um ou dois que não fazem mesmo é nada, mas eu
acho que quando crescerem vão ficar melhores. Os outros todos tentam com muita
força fazer coisas boas e muitos conseguem.
Na casa do meu amigo IPA há muitos livros cheios de histórias e estão todos
arrumadinhos para os outros meninos poderem ir lá ler coisas.
Na casa do meu amigo IPA há uns meninos que estudam muito e ajudam os outros
meninos a fazer coisas que eles não conseguem porque não têm os mesmos
brinquedos. Eles até deixam os outros meninos brincarem com os brinquedos
deles.
Eu sei que tu não sabes brincar com aqueles brinquedos (tu e os teus amigos só
brincam com moedas e notas àquele jogo que ganha quem fizer mais pobrezinhos),
mas eu digo-te que é muito feio tirares os brinquedos e ires dá-los ao IPPAR,
que já é velho e não gosta de brincar. Eu sei que eles vão metê-los num
armário e nunca mais ninguém os vê.
O meu amigo IPA ainda tem só cinco anos mas já é muito forte. Não deixa os
meninos fazerem as coisas mal feitas e depois todos têm que contar a toda a
gente as coisas que fizeram e as histórias ficam todas dentro de um computador
muito grande para toda a gente poder ler. Ele escreveu umas coisas que ensinam
como se podem fazer as coisas para ficarem bem feitas sem as outras pessoas se
zangarem.
O meu amigo IPA tem muitos amigos estrangeiros que gostam das coisas que ele faz
e assim quando nós descobrimos coisas bonitas os amigos dele sabem e também
gostam de nós.
Antes do meu amigo IPA nascer havia poucas pessoas que sabiam fazer as coisas
mas ninguém sabia porque elas não contavam a ninguém. Também havia umas
pessoas que queriam brincar nos sítios todos e algumas conseguiam porque
ninguém tomava conta delas.
Eu sei que o meu amigo IPA fez umas asneiras e que ás vezes gosta mais duns
meninos do que doutros mas eu prometo que se tu o deixares ficar na casa dele eu
e os meus amigos todos vamos ajudá-lo a ser amigo de toda a gente.
Se tu o mandares para casa do IPPAR eu chamo a minha malta e vais a ver. Fazemos
muitas birras no meio da rua, fazemos queixinhas àqueles senhores do
estrangeiro, estragamos os camiões e as escavadoras dos teus amigos, contamos a
toda a gente as coisas feias que o IPPAR fizer, dizemos a toda a gente para não
votar em ti porque tu és mau e... e.... e olha, vamos todos roubar chocolates
naqueles supermercados grandes dos teus amigos ricos até ficarem pobres como
nós!!!
Dorme bem se puderes, Senhor Ministro
Muguele
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